CINE TROPPO - SEMANA DE 19 À 25/10/12

Cine Troppo
Marco Antonio Moreira Carvalho

Crítica/DVD 
 “PI” Pi (EUA, 1998), escrito e dirigido por Darren Aronofsky, é um filme instigante, intrigante e perturbador. Pode ser, em princípio, estimulante para matemáticos, físicos e cientistas da computação, depois para psicólogos e psiquiatras e, mais, para admiradores de uma complexa trama cujo centro é um cientista obcecado que pesquisa a Matemática na busca de padrões em tudo na natureza; ele acredita na proposição: A Matemática é a linguagem da natureza. Maximillian Cohen (Sean Gullette), quando criança, recebera da mãe uma advertência: não olhar para o Sol. Aos seis anos ele olhou, ficou sem enxergar e os médicos não sabiam se ele recuperaria a visão. “– Fiquei apavorado naquela escuridão. Devagar a luz do dia penetrou através das ataduras e consegui ver. Mas algo mudara dentro de mim. Naquele dia, tive minha primeira dor de cabeça.” Com o relato desse fato feito por Max, começa o filme, que tem história de Darren Aronofsky, Sean Gullette e Eric Matson, Matthew Libatique como diretor de fotografia, montagem de Oren Sarch e música original de Clint Mansell.Max tem excepcional capacidade para efetuar contas com grandes números, de memória. Logo no início, de posse de uma pequena calculadora de mão que já tem a conta efetuada com o resultado no visor, a garotinha Jenna pergunta-lhe: “- Quanto é 322 x 491?” E ele em instantes: “- 158.102. Certo?” É o que registra a máquina de calcular. Para exemplificar a existência de padrões na natureza Max cita: o ciclo das epidemias, o aumento e a diminuição da população de caribus, os ciclos das manchas solares, a cheia e a baixa do Nilo. Ele vai além ao afirmar que na bolsa de valores há também um padrão. Max faz seus estudos com o apoio de um computador mainframe, o Euclid, que ele utiliza na construção de inúmeras séries de números e algarismos na busca de padrões, imprimindo-os em seguida para analisá-las. Inesperadamente Max recebe uma ligação telefônica, é de Marcy Dawson (Pamela Hart), sócia da Lancet-Percy, firma de estratégias de previsão e que tenta marcar um encontro com ele. Também inesperadamente, enquanto bebe chá em uma lanchonete e analisa listagens produzidas no computador de seus estudos sobre a bolsa de valores, surge Lenny Meyer (Ben Shenkman), como Max um judeu. Lenny é praticante, Max não liga para religião. Lenny também trabalha com números, nada tradicional, trabalho com o Torá. 
O personagem que mantém com Max a sustentação teórico/científico/filosófica do argumento é Sol Robeson (Mark Margolis), ex-professor de Max, aposentado e que já sofreu um derrame cerebral, mas mantém ativa a capacidade cerebral de raciocínio. A inserção do ambiente externo é utilizada por Darren Aronofsky; feita de um modo criativo, é um elemento importante em uma narrativa na qual as palavras são utilizadas intensivamente em reflexões, análises, ponderações e explicitação de conceitos matemáticos, científicos e religiosos. Ao mesmo tempo em que alivia a carga verbal, é importante ao mostrar o mundo exterior que cerca Max. A utilização de ilustrações desenhadas, algumas feitas durante o filme pelos personagens, reforçam a compreensão de explicações matemáticas minimizando a aridez de alguns conceitos. O uso do jogo Go, um jogo estratégico que utiliza um tabuleiro e pedras brancas e pretas, nas discussões entre Max e Sol, permite visualização e melhor compreensão de alguns aspectos de parte das teorias em discussão. O filme é em preto e branco, com fortes contrastes entre o claro, muito iluminado artificialmente, e o escuro, dando à fotografia um papel importante no conjunto. A imagem é granulada e reforça o clima de irrealidade em muitos momentos. A música tem papel funcional sobretudo no reforço às cenas mais dramáticas.Computadores entram nas reflexões de Max e Sol e de um modo extremamente inusitado. Mestre e discípulo examinam situações de erro da máquina, de bug. O que Sol explica, ou tenta explicar, é um novo encaminhamento para as especulações e ações no filme: “- [...] minha suposição é que certos problemas prendem os computadores em determinado loop [laço]. O loop faz queimar. Mas antes eles se tornam conscientes da própria estrutura. O computador, ciente da sua natureza de silício imprime seu conteúdo.” 
Na verdade, Max não é apenas um pesquisador preso a uma busca obsessiva. Ele apresenta sério problema de saúde. Tem fortes ataques que se iniciam com tremores na mão direita e vão á exaustão, à perda de consciência. Para controlá-los, ele toma remédio via oral e aplica injeções em si mesmo. Os encontros finais de Max com Marcy Dawson e Lenny Meyer e o destino do computador mainframe Euclid complementam de modo exemplar as extensas reflexões abertas em várias direções e níveis durante os momentos anteriores.O final do filme, para mim, na verdade, é ao mesmo tempo relaxante e intrigante. Max perdeu a capacidade de acertar, de memória e rápido, o resultado de contas com números grandes. Novamente testado pela garotinha Jenna para responder sobre o resultado de contas, Max diz que não sabe o resultado, e não sabe mesmo. Ele olha para o céu, com ar de satisfação, o foco da câmera, que é o que ele vê, é nas folhas de uma árvore, os galhos balançando com o passar do vento. Lentamente a câmera vai se afastando, a música é dolente. A tela escurece. (Arnaldo Prado Junior) 

*”Pi” é o primeiro filme dirigido pelo cineasta Darren Aronofsky (Cines Negro/Réquiem de um Sonho) será exibido quinta, dia 25/10, no Cine Saraiva (Livraria Saraiva) às 17 h na parceria da ACCPA (Associação dos Críticos de Cinema do Pará) e APC (Academia Paraense de Ciências) com debate após a exibição.

ESTREIA DA SEMANA
 “Fausto” de Aleksandr Sokurov. Anunciado como o quarto segmento de uma tetralogia formada por “Moloch” (sobre Adolf Hitler), “Taurus” (sobre Lênin) e “O Sol” (sobre o imperador japonês Hiroito), “Fausto” é o novo filme de um dos maiores diretores da atualidade e é livremente inspirado na obra de Goethe. “Fausto” foi o vencedor do Leão de Ouro no último festival de Veneza. O filme entrou em cartaz no Cine Estação no dia 18/10 e será exibido nas seguintes datas : 21 (domingo), às 10h, 18h e 20h30,25 (quinta), às 18h e 20h30, 26 (sexta) às 18h e 20h30 e 28 (domingo) às 10h, 18h e 20h30. 

AGENDA
 *Cineclube Alexandrino Moreira : Dia 22/10, será exibido o primeiro filme da Trilogia das Corês de autoria do cineasta polonês K. Kieslowski com “A Liberdade é Azul” às 19 h com entrada franca e debate. Os outros filmes da trilogia serão exibidos em novembro e dezembro, respectivamente.(O filme estava programado para o dia 15/10 mas teve sua data de exibição alterada para dia 22/10).
 *Cine Olympia: Domingo, dia 21, encerra a mostra TARZAN O FILHO DAS SELVAS, com a exibição de “TARZAN CONTRA O MUNDO” (1942) com Johnny Wessmuller no elenco. Sessão às 18:30 H com entrada franca. De 23 à 27/10 (de terça à sábado), será exibida uma mostra de melodramas com títulos que marcaram várias gerações como STELLA DALLAS (King Vidor), SUBLIME OBSESSÃO (Douglas Sirk), IMITAÇÃO DA VIDA (Douglas Sirk), MADAME X (David Lowell Roch) e AMAR FOI MINHA RUINA (John Stahl). Sessões às 18:30 h com entrada franca. Domingo, dia 28/10 às 18:30, acontecerá uma mostra de animação em comemoração ao dia internacional de Animação. Entrada franca. 
*Cine Estação: Está em exibição desde quinta-feira, dia 18/10, “Fausto” de A. Sokurov, considerado um dos melhores filmes do ano pela crítica especializada. 
*Cineclube da Casa da Linguagem: Em parceria com a ACCPA, em Outubro acontecerá um ciclo em homenagem ao diretor Howard Hawks. Dia 23/10, será exibido “Scarface : Vergonha de uma Nação” (dia 23) às 18h com entrada franca.. 
*Cine Sesc Boulevard : Dia 24/10, em parceria com a ACCPA , será exibido o filme “Garapa” de Jose Padilha às 19h com entrada franca e debate com críticos. 
* Cine Saraiva : “Pi” de Darren Aronofsky será exibido na quinta dia 25/10 às 17 h na parceria da ACCPA com ACP (Academia Paraense de Ciências) com debate após a exibição.

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