Cine Troppo - De 08 a 14/02/16


CINE TROPPO
Marco Antonio Moreira Carvalho


“A Forma da Água” e o conto de fadas
“A Forma da Água" de Guillermo del Toro é decepcionante. A proposta de explorar a estrutura do “conto de fadas” (moderno? antigo?) é perigosa, mas esse diretor já tinha elaborado isso criativamente em trabalhos anteriores. A proposta é perigosa, pois leva o artista a uma criação de mera repetição ou então de inovação num processo de elaboração de histórias/estéticas que podem expressar seu sentimento/pensamento.
Em “A Forma da Água” temos a história de uma zeladora que é muda, com dificuldades de relacionamentos, tímida e que trabalha em um laboratório experimental secreto do governo. Ela conhece uma criatura que é presa e maltratada, A identificação entre ela e criatura é quase imediata e um relacionamento surge por meio de encontros onde ela finalmente encontra alguém para compartilhar sentimentos e/ou desejos. O que percebo então é a construção de tipos estereótipos (bem, mal, amigo, inimigo) que inclui (acredite se quiser) vilões da União Soviética (o filme acontece nos anos 60 no período da guerra fria).
A luta entre bem e o mal (incrível, mas novamente o bem do lado dos americanos e o mal do lado dos soviéticos!) vai gerar conflitos que terão como desenlace a fuga da criatura do laboratório para viver, enfim, um grande amor. Com essa trama (?!) é visível perceber que o diretor constrói armadilhas emocionais numa narrativa velha, previsível, estereotipada (bem e mal, mocinho e vilão) que merece questionamento, mas ainda agrada porque é uma visão consolidada na maioria de que o mundo é dividido apenas entre bem e mal. O diretor escolheu o caminho da superficialidade na sua história de conto de fadas, sem complexidades, sem aprofundar personagens, sem criar relações mais abrangentes sobre o que é a criatura e seus “inimigos” e até sobre sua personagem principal que quando sonha revela seus mais íntimos desejos de alienação (ao estilo cinema americano).
O roteiro foi elaborado com fórmulas simplistas repleto de previsibilidades que incomodam especialmente na segunda metade do filme (as mudanças da personagem principal são rápidas e imediatistas). Entre outras questões que podem ser apontadas como pontos fracos do filme, a direção procura uma "embalagem" repetitiva e encantadora para seus personagens (planos, movimentos de câmera, utilização da música). O filme beira um sentimentalismo "barato" e me lembrou de alguns filmes de Steven Spielberg dos anos 80/90 que tanto fizeram sucesso de público com essa característica, mas provavelmente será um sucesso e deve ganhar o "Oscar", pois reforça aquilo que já é passado e Hollywood adora essa perspectiva!
Entendo que o aspecto lúdico de uma obra de arte seja muitas vezes minimizado com relação ao seu aspecto artístico, mas certamente esse debate merece nossa atenção. E “A Forma da Água” certamente ajudara nesse aprendizado.

INDICAÇÕES
CONTINUAÇÕES


“O Touro Ferdinando”
Filme de Carlos Saldanha
Animação


“The Post – A Guerra Secreta”
Filme de Steven Spielberg
Com Meryl Streep e Tom Hanks

BREVE

“Trama Fantasma”
Filme de Paul Thomas Anderson
Com Daniel Day Lewis

CINECLUBE

“As Duas Faces da Felicidade” (1966)
Filme de Agnes Vardá
Cineclube Alexandrino Moreira – Dia 05/03

 AGENDA
*Cineclube Alexandrino Moreira (Casa das Artes):
Dia 05/03 – “O Cinema de Agnes Varda” – “As Duas Faces da Felicidade”.  Sessão às 19 h. Entrada franca. Debate após a exibição.
*Cine Olympia:
A partir do dia 14/02 – “O Filho de Jean”. Sessão às 18h30min (exceto sábados, domingos e feriados às 17h30min). Entrada franca. Apoio: Cinemateca Francesa.
*Cine Líbero Luxardo:

A partir de 15/02 - “Me Chame pelo seu nome”.
*Centro de Estudos Cinematográficos (Casa das Artes):

Dia 20/03 –“Roda de Cinema”. A ação envolverá a leitura/debate dos participantes sobre textos previamente divulgados nas mídias sociais do CEC para estímulo dos estudos cinematográficos. O primeiro texto será do livro "A Mise en Scène no Cinema - Do Clássico ao cinema de fluxo" de Luiz Carlos Oliveria Jr. (parte 1 - Tudo está na Mise en Scène). Horário: 18h30min. Inscrições gratuitas.


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